sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Solidariedade à Rosa da Fonsêca

Pedro Albuquerque, especial para o Blog "Donas de Si"

Realizou-se hoje pela manhã, no Comitê de Imprensa da Assembléia Legislativa do Estado do Ceará, por iniciativa da Associação de Anistia 64-68, reunião de várias pessoas e entidades com o objetivo de prestar solidariedade à Rosa da Fonsêca e a outros membros do movimento Crítica Radical (CR) que, presentes à sessão de julgamento do pedido de extradição do militante de esquerda italiano Cesare Battisti, foram violentamente expulsos do recinto do STF por expressarem sua posição a favor do extraditando.
Pessoas das mais diferentes posições políticas e ideológicas, algumas, inclusive, a favor da extradição, uniram-se num só propósito : o da defesa da liberdade de expressão do pensamento assegurada a todos os cidadãos pelo art. 5o., inciso IV, da CF/88 e uma das mais preciosas conquistas da tradição democrática universal. A expulsão da Rosa e de outros membros do movimento CR, conduzida por uma instituição cuja função principal é a de servir de guardiã da Constituição Federal, representou uma flagrante lesão constitucional. Ademais, a TV Justiça não noticiou o acontecimento, diferentemente de como procederam outros meios de comunicação, fato que revela um ambiente de censura interna.
Esse nefando ato contra a liberdade de expressão do pensamento por parte do STF é um indício de que, sob a Presidência do Ministro Gilmar Mendes, dissemina-se uma tendência nociva ao exercício da democracia, qual seja a instauração lenta e gradual de uma ditadura do Judiciário, tal como aventou o o Ministro Marco Aurélio quando da leitura de seu voto contra a extradição de Cesare Battisti. Dessa forma, a solidariedade manifestada na manhã de hoje acenou para um campo de ação cívica bem mais abrangente, alcançando a discussão sobre a judicialização da política, uma vez que o STF tem, seguidas vezes, muitas das quais por pedidos oriundos de certos setores da sociedade, invadido competência legislativa, violando, assim, o princípio da separação de poderes e se constituindo em «legislador negativo».
A agressão perpetrada no recinto do STF à Rosa e seus companheiros e companheiras será debatida na reunião ordinária da Comissão de Direitos Humanos da Assembléeia Legislativa, sob a Presidência do Deputado Heitor Ferrer, na terça-feira próxima, dia 1o. de dezembro.
Dentre os presentes ao ato de solidariedade encontravam-se, além de Rosa da Fonsêca e sua família, a ex-Prefeita de Fortaleza, Maria Luiza Fontenele, o Deputado Heitor Ferrer, Mário Albuquerque e Messias Pontes, presidente e vice da Associação 64-68, respectivamente, a sra. Maria de Lourdes Miranda de Albuquerque, o poeta Barros Alves, o compositor e cantor Pingo de Fortaleza, o radialista Francisco Bezerra, o advogado Arnaldo Fernandes, representando o vereador João Alfredo, e presidentes de sindicatos e entidades comunitárias.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Sessão Retrô - Malu Mulher


Quem viveu na década de 70 lembrará com certeza do seriado exibido pela TV Globo, "Malu Mulher", dirigido por Daniel Filho, que estreou na TV Globo no dia 24 de maio de 1979 e tinha a atriz Regina Duarte no papel principal. Ela, que encenava a famosa socióloga Malu (pra quem quiser ver, os vídeos estão lá embaixo no blog, na barra de rolagem do YOU TUBE) que passava por uma separação e tinha que se virar sozinha para trabalhar e criar a filha.
A música de abertura (linda, por sinal) "Começar de Novo", foi criada por Ivan Lins especialmente para a abertura da série.
O seriado causou rebuliço e rendeu puxões de orelhas da ditadura, por abordar temas "ousados" como separação, orgasmo, aborto, pílula... hoje, segundo uma amiga blogueira, mostraria-se tão ingênuo que não chamaria atenção nem na Sessão da Tarde rsrsrs!.
Lembro-me bem que crianças, como eu, não podiam assistir, pois além de tratar de temas de conteúdo sexual, era exibido em um horário em que os pimpolhos já estavam na cama há muito tempo. Hoje, a garotada de sete anos, oito anos assiste a novela das oito, (muito mais picante), sem nenhum susto.
Volto pra garimpar outros vídeos da época, nessa seção Retrô. Afinal, recordar é viver.... E aliás, apesar de todas as conquistas, a cobrinha do conservadorismo sempre põe a cabeça de fora!

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Solidariedade à Rosa da Fonseca


A seguir, publico a nota de solidariedade divulgada pelo jornalista Messias Ponte, vice-presidente da Associação 64/68 Anistia Ceará, sobre o episódio lamentável envolvendo a companheira Rosa da Fonseca, professora, militante do Movimento Crítica Radical em Fortaleza, mulher de grande vitalidade na luta pela emancipação feminina e os direitos humanos.
Conheço Rosa pessoalmente e respeito-a muito, pela sua coerência e coragem de assumir suas posições.
Nosso blog repudia veementemente a agressão sofrida por Rosa, principalmente, nas barbas do STF , lugar onde deveriam ser preservadas a integridade e a dignidade dos cidadãos brasileiros.


Companheiros(as)
Já dizia Che Guevara que aquele que não tem a capacidadede se indignar com a injustiça, em qualquer parte do mundo, este não merece ser chamado comnpanheiro.

O que aconteceu na última quarta-feira em Brasília, durante o julgamento do italiano Cesare Battisti, merece o repúdio de todas as pessoas comprometidas com a democracia e justiça. O grande jurista Dalmo Dallari já chamava a atenção do Senado Federal e da sociedade brasileira para o perigo que a democracia correria caso o então advogado-Geral da União fosse integrar os quadros do Supremo Tribunal Federal.

A maneira como a companheira Rosa da Fonseca foi tratada na ocasião merece o repúdio de todos nós, independente de concordarmos ou não com as posições dela. Ela foi jogada ao chão, na calçada do STF, como se joga uma coisa imprestável.
Por isto, estamos conclamando a todos(as) para comparecer ao Comitê de Imprensa da Assembléia Legislativa, nesta quinta-feira 26 de novembro, às 10 hs da manha, para prestar solidariedade a ela durante a coletiva de imprensa que acontecerá ali.

Fraternal abraço,
Messias Pontes
Vice-presidente da Associação 64/68 Anistia Ceará

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Somos violentadas todos os dias

Nesta quarta, 25, "comemora-se" (rsrs) o Dia Internacional da Não Violência contra a Mulher, um problema mundial, que atinge mulheres de todas as faixas etárias e camadas sociais e ainda é fruto de uma cultura machista e patriarcal. Sem querer elencar estatísticas de agressões às mulheres, que sabemos não parar de crescer, durante esses dias, fiz uma reflexão e percebi que infelimente, mesmo com tantas campanhas de conscientização, o corpo da mulher continua sendo explorado de todas as formas, as mulheres continuam entrando no jogo masculino, se matando nas academias, fazendo plásticas, disputando o amor do homem pela beleza física e claro, se frustrando. Vejo na televisão meninas com os corpos marombados, seminuas, com o único objetivo de satisfazer um desejo voyeur masculino... Fico pasma com o preconceito que ainda atinge as mulheres mais maduras, descartadas pela mídia e pelo mercado de trabalho, tratadas como "enconstadas" por homens com problemas de autoafirmação, mal resolvidos, que procuram nas mais jovens um consolo para enfrentar a velhice e o desempenho sexual.
E lembro-me do exemplo de tantas mulheres, Marta Suplicy, Simone de Beauvoir, Rose Marie Muraro, Lígia Fagundes Telles, Meryl Streep, Clarice Lispector, Olgária Matos, Glória Khalil e tantas outras, de todas as classes sociais, que atingiram a fase mais interessante na maturidade... e continuaram (ou continuam belas).
Ao meu ver a violência contra a mulher não é só física, ela é psicológica também, e envolve todas essas questões. Somos violentadas o tempo todo, como se uma voz interna nos atormentasse sempre :´"você tem que ser bela, pintar o cabelo, fazer as unhas, tem que malhar, se vestir bem, seduzir, seduzir, seduzir"... não importa o teu conteúdo, mas o teu invólúcro... até entendo, mencionando o filósofo Jean Baudrilard, do poder feminino da sedução, mas vamos com calma, seduzir por seduzir, sem um algo a mais, algo que nos faça pensar, uma sedução apenas pelo corpo, por uma perna, uma bunda, um peito, um corpo nu... será que não existe sedução em ver uma Lígia Fagundes Telles escrevendo, ou no silêncio de uma Clarice, ou numa Olgária falando de filosofia? Ou simplesmente, numa mulher, sendo ela mesma?
Afinal, o que significa mesmo esse seduzir, sem brilho, sem vida, sem graça, sem feminilidade, sem naturalidade? Não sei o que o futuro aponta, mas me entristeço, e posso estar sendo conservadora, em ver as novas gerações tão "seduzidas" por esse modelo... esse sim, perverso, que não constrói, mas destruirá todas essas meninas quando já não forem belas e marombadas, quando envelhecerem, quando não servirem mais para alimentar a máquina do desejo masculino.
Talvez eu não esteja escrevendo sobre nada de novo, mas fica aí o desabafo... acho que todas as mulheres, em algum momento da vida, sentiram-se excluídas por algum motivo relativo à beleza ou à maturidade... gostaria de poder transmitir com esse post, mais confiança às tantas mulheres, infelizes com a própria vida e com a aparência, lembrando-as que sempre haverá espaço para o pensamento e para as que buscam um caminho diferente do que nos oferecem.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Três anos de Lei maria da Penha: avanços e deficiências



A seguir, nosso blog reproduz na íntegra a entrevista das assessoras técnicas do Cfêmea, Iáris Cortês e Analba Brazão, sobre os avanços e as deficiências dos três anos da Lei Maria da Penha .

Acompanhe a entrevista na íntegra:

Fêmea - O processo de elaboração da Lei Maria da Penha (LMP) contou com o protagonismo dos movimentos sociais. Como você analisa a incidência dos movimentos de mulheres nesse processo legislativo?

Iáris Cortês - Não restam dúvidas que os movimentos de mulheres foram os grandes protagonistas em todo o processo de elaboração de leis que ampliaram os direitos das mulheres, principalmente após a Constituinte. Com relação ao processo de elaboração e aprovação da Lei que cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher - Lei 11.340/2006, este processo teve inicio ainda na década de 70, quando o movimento feminista dava seus primeiros passos.

Analba Brazão - O movimento feminista tem incidido bastante, nestas três últimas décadas, no processo legislativo para ampliação dos direitos. Isso se deu fortemente nas áreas de saúde e na área da violência contra as mulheres. A última grande mobilização foi em torno da construção e aprovação da LMP. Agora estamos na luta intensa para que a lei seja implementada da melhor forma possível, enfrentando de todos os lados a fúria patriarcal.

Fêmea - A Lei completa três anos, em agosto deste ano. Qual a sua análise sobre a aplicabilidade desta lei pelos Poderes Executivo e Judiciário?

Iáris - Reconhecemos os avanços, o empenho do Executivo, por meio da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM) e de alguns representantes do Judiciário, porém ainda está muito longe da Lei ser aplicada em todos os municípios brasileiros. Além do mais, onde existe a aplicação, nem sempre está sendo feita aos moldes da Lei. Tem o sério problema dos cortes ou contingenciamento de recursos na Lei Orçamentária Anual. Este ano, por exemplo, vimos uma ameaça de corte de 60% dos recursos das políticas públicas para as mulheres e não sei quanto deste montante estaria destinado ao programa de combate à violência doméstica. São poucas delegacias e casas abrigo. Já no Judiciário, ainda encontramos juízes que levantam a questão superada da inconstitucionalidade da Lei. Poucos Juizados foram criados, em comparação ao número de municípios que existem em nosso país. As equipes multidisciplinares não são suficientes nem os serviços de atendimento.

Analba - Sabemos que para a aplicabilidade da lei é necessário que o governo federal e os locais atuem de forma articulada, provendo os mecanismos que possibilitam a sua implementação. Requer a criação dos juizados especializados nos estados, para julgamento dos casos de violência domestica, fortalecimento de uma rede integrada de proteção as vitimas e capacitação de seus funcionários. Tudo isto depende de vontade política e de uma justa distribuição orçamentária. Além de sofrerem violência doméstica em suas casas, as mulheres se deparam com a violência institucional e a negligência. No RN, o Juizado foi criado no dia 8 de março, como uma das realizações da governadora “mulher”, mas não foi divulgada a forma como o Estado viabilizaria sua implementação, já que a DEAM da cidade encontrava-se em calamidade. Outro fator que ocorre com os juizados é a não absorção das demandas. No Rio de Janeiro são quase 18 mil processos encaminhados apenas em 2008, nos 4 juizados existentes. As medidas protetivas também não são aplicadas em tempo hábil. Em SC são 6 juizados, mas é o único estado da federação que não possui Defensoria Pública. O balanço nacional da LMP, ação realizada pela AMB, mostra a ineficácia da implementação da Lei e indica que os mecanismos criados nos estados foram impulsionados pela luta do movimento feminista.

Fêmea - Existe um ponto polêmico da LMP que recai sobre o prosseguimento ou não do processo quando a mulher desiste da denúncia contra o agressor. Qual a sua opinião sobre este ponto?

Iáris - Existem vários pontos polêmicos e ainda vão persistir por muitos anos, pois o machismo velado que existe no Brasil faz com que muitas pessoas achem esta Lei desnecessária. Tentam não ver a violência que as mulheres sofrem em seus lares nem a necessidade de se combater esta violência de forma radical como exprime a LMP. A desistência da denuncia contra o agressor é um ponto nevrálgico, pois pode inviabilizar o alcance total da Lei. Por isso é importante acompanhar o recurso que está no Superior Tribunal de Justiça (STJ) que irá decidir se a mulher pode ou não desistir da denúncia nos crimes de lesão corporal leve ou culposa - agressão física. Se as mulheres puderem desistir, para que servirá a Lei? Seria a volta da banalização da violência doméstica contra as mulheres onde era afirmado que “um tapinha não dói”. O Estado tem que encarar e assumir a responsabilidade de punir os culpados. Dizer que a “autonomia das mulheres” é podada é não conhecer a realidade brasileira, onde cerca de 90% das pessoas não têm acesso à internet. A maioria das mulheres é dependente financeira e emocionalmente, além de submissas a seus pais, maridos ou companheiros. Ainda há a vergonha, o medo da vingança, a pressão da família.

Analba - Em nossa experiência, observamos que muitas mulheres se viam obrigadas a retirar a queixa pelos próprios agressores. A pressão também vinha da família, da dependência econômica, a falta de apoio e principalmente o descrédito na justiça. Exigir a representação, para dar prosseguimento ao processo penal é não reconhecer as relações hierárquicas estabelecidas entre os homens e mulheres. É querer voltar a “conciliação” em nome de uma família “harmoniosa” e fechar os olhos para o ciclo de violência estabelecido nesta relação afetivo-conjugal. Não se pode admitir que, quando a vitima é mulher e a agressão foi cometida no ambiente familiar, possa ser considerado como uma agressão menor, desconsiderando as outras marcas que vão além daquelas que podem ser vista no corpo. Com a LMP, a agressão, mesmo as lesões corporais de natureza “leve”, não podem mais ser consideradas como ação privada e que depende da “vontade” da mulher para continuação do processo. Exigir isso é mais um encargo para as mulheres.

Fêmea - Já existem proposições no Congresso para alteração da Lei. Devemos ficar alertas para riscos de retrocessos?

Iáris - Sim. Muitas vezes as alterações prejudiciais estão nas entrelinhas, são despercebidas numa primeira leitura. A experiência que tenho nesses mais de vinte anos é que o movimento de mulheres, aliás, todos os movimentos sociais devem sempre ficar de olhos muito aberto no que acontece no Congresso Nacional.

Analba - Infelizmente, desde a sua aprovação, muitos têm tratado a lei da mesma forma que tratam as mulheres vitimas, com desconfiança. São várias as dificuldades que estamos enfrentando e o “alerta feminista” tem que ser constante, por que há real risco de retrocessos. Alem de ter vários projetos de alteração na Lei, temos que ficar bastante atentas para o que propõe a Reforma do Código de Processo Penal (PLS 156/2009).. Conseguimos na LMP, retirar a leitura de que a violência contra as mulheres é crime de menor potencial ofensivo, conseguimos colocar esta violência como um crime a ser punido de verdade. Temos que estar atentas para que esta grande conquista na luta pelo fim da violência doméstica não seja confiscada. Por isso faremos, em agosto, mobilização em defesa da Lei. Acompanharemos a discussão no Congresso, no STJ e no Supremo Tribunal Federal, que julgará a Ação Declaratória de Constitucionalidade da LMP e, com certeza, irá confirmar que a Lei não fere nossa Constituição.

Aumenta idade média das trabalhadoras domésticas

Deu na Folha, no dia 1/11/2009:
Além do aumento da participação de diaristas, uma mudança ocorrida no mercado de trabalhadores domésticos diz respeito ao envelhecimento das profissionais durante a última década.Em 1998, 32% delas tinham até 24 anos. Dez anos depois, essa mesma proporção caiu para 17%. A faixa etária que mais cresceu foi a de 45 a 59 anos, que passou de 17% para 26% da categoria.Uma das explicações do estudo do Ipea para esse movimento é o pequeno aumento de escolaridade no Brasil, que abre novas perspectivas para as mulheres mais jovens, principalmente as que têm entre 18 e 24 anos, além do desvalorizado trabalho doméstico."Como o Brasil está aumentando o nível educacional, tem muito pouca mulher jovem disposta a aceitar trabalhar como doméstica. Elas acabam vendo isso como uma ocupação temporária", afirma Simone Wajnman, da UFMG.
Para ter uma ideia, as domésticas nessa faixa etária tinham em 2008, em média, oito anos de estudo, o que significa pouco mais do que o ensino fundamental completo. Dez anos antes, em 1998, a média ficava em 5,6 anos de escola. Já as mais velhas, com 60 anos ou mais, estudaram pouco mais do que três anos, o que, além da idade em si, dificulta a procura por um novo tipo de trabalho no mercado.

* O mais interessante dado dessa matéria é observar que no Sudeste, no Sul e no Centro-Oeste, a proporção de diaristas varia de 13% a 19%. Já nas regiões Nordeste e Norte, elas representam 30% e 26% das diaristas, respectivamente, ou seja, ainda reflexos da cultura coronelista e escravista presente nessas regiões.

sábado, 6 de setembro de 2008

Partidos não cumprem cotas de mulheres

Essas eleições mostraram que a disputa pelos cargos majoritários no Brasil não mudou muito: as mulheres não representam nem 30% das candidaturas femininas estipuladas por lei. Nenhuma novidade! Desde pequenos, os homens são criados para comandar ou assumir cargos de maior responsabilidade. Esse é um tema que precisa ser trabalhado desde a primeira infância, na sala de aula, nas brincadeiras de meninos e meninas, em casa, na divisão do trabalho doméstico. À mulher, ficou reservada a tarefa de comandar... no ambiente doméstico. E isso ainda predomina no Brasil.
O levantamento foi feito pela Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, da Presidência da República, com base em dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
A cota de 30% das candidaturas femininas dos partidos também nunca é cumprida. O Amapá tem o maior percentual de mulheres concorrendo às prefeituras: 17%. Para vagas nas Câmaras, Mato Grosso do Sul lidera: 25%.
Outra explicação para a pouca participação política das mulheres, segundo Sônia Malheiros, subsecretária de Articulação Institucional da secretaria é que as mulheres sempre tiveram uma educação que sinalizava que política era feita por homens. "A sobrecarga de responsabilidade familiar sobre as mulheres também as amarra".
Hoje, as mulheres representam 10% dos candidatos às prefeituras. Em 2004, eram 9,5%. Para o Legislativo, o índice (22%) se manteve. Para tentar reverter o quadro, a secretaria fez a campanha "Mais mulheres no poder, eu assumo esse compromisso!"
Mais: números da ONG Inter-Parliamentary Union mostra que o Brasil aparece na 142ª posição entre 188 países com participação feminina na política --atrás de Cazaquistão e, na América do Sul, só à frente da Colômbia. Nas capitais, poucos partidos conseguiram cumprir os 30%. O PC do B foi o que mais chegou perto ao atingir a marca em 12 cidades (menos da metade).

terça-feira, 12 de agosto de 2008

" Papo de Atitude" apresenta propostas de Marta para mulheres



As políticas públicas para mulheres ainda estão escassas nos programas de governo dos atuais candidatos a prefeito – ainda mais, diante de poucas candidaturas majoritárias femininas e do descumprimento das cotas nas instâncias partidárias.

No entanto, a urgência de ações nessa área requer um foco específico. É o que pensa Tatau Godinho (foto), mestre em sociologia pela PUCSP, que apresentou algumas propostas importantes do programa de governo da candidata petista Marta Suplicy no “Papo de Atitude”, sala de bate-papo que ocorre todos os dias no site da candidata www.marta13.can.br com a participação de internautas.

Uma delas, importantíssima, refere-se aos programas que ampliam a possibilidade de emprego e renda, de geração de postos de trabalho, espaços de economia solidária e que aproveitem a criatividade das mulheres na produção de artesanato e produtos alternativos à economia mercantil. Segundo ela, “é preciso manter os programas de transferência de renda porque as mulheres ainda estão entre os setores mais empobrecidos da população”.
Sobre a assistência à gestante, Tatau lembrou o programa “Nascer Bem”, da gestão anterior de Marta, que priorizava a saúde feminina durante o período da gravidez. Lembrou ainda que antes as mulheres tinham transporte gratuito quando precisavam fazer as consultas de pré-natal.

Outro ponto que gerou perguntas de internautas incluiu as gestantes que trabalham em regime informal e que não têm direito à licença maternidade. “Um atendimento específico às mulheres na saúde pública não exige a apresentação de certificados de trabalho, mas é verdade que dependemos de uma política nacional que altere a previdência para que as mulheres em regime de trabalho informal tenham acesso a licença maternidade”, disse.

Um dos desafios da nova gestão, segundo Tatau, caso Marta saia vitoriosa, será garantir o horário integral nas creches públicas. No governo anterior as creches funcionavam por um período de 12 horas, possibilitando que as mulheres pudessem deixar o filho e ir ao trabalho incluindo o tempo gasto no transporte. “Infelizmente, hoje a Câmara Municipal discute a proposta de reduzir o horário das creches com o argumento de que as crianças não precisam ficar todo o tempo na escola. Não levam em consideração a realidade das mães que trabalham fora”.

Outras ações do programa de Marta são: ampliação da rede de creches, a ampliação dos centros de atendimento à violência, a criação de políticas culturais para as mulheres, um programa de educação não discriminatório nas escolas entre outras. “Existem políticas que parecem não incidir sobre a vida das mulheres, mas são muito importantes porque reduzem o trabalho doméstico, como por exemplo, a ampliação da merenda escolar com a criação da segunda refeição na escola”.


Para Tatau significa muito para São Paulo já ter tido duas prefeitas mulheres. “Isso mostra que avançamos muito em relação a participação política feminina. Mas a discriminação ainda é muito grande. Aqui mesmo discutimos o quanto várias das críticas à candidatura de Marta Suplicy são resultado de uma visão preconceituosa sobre as mulheres na política” .

Violência

A propósito da violência contra a mulher, Tatau acredita ser importante criar uma rede de atendimento que chegue às mulheres nas diversas regiões de São Paulo. “Com atendimento psicológico, social e jurídico. É preciso também retomar os serviços de atendimento à violência dentro da rede de saúde que foi praticamente desativado no governo atual. Ao mesmo tempo, durante a gestão Marta Suplicy, desenvolvemos uma política de capacitação da guarda civil metropolitana para que ela estivesse atenta e capacitada para combater a violência contra as mulheres”, explicou.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Especialistas: mulheres têm chances em 4 capitais


Apenas 25 dos 176 candidatos às prefeituras de capitais nas eleições municipais são mulheres. Apesar do percentual baixo das candidaturas - 14,2% - elas despontam como favoritas em pelo menos quatro capitais, o que abre a possibilidade de um resultado histórico para as mulheres. Hoje, só uma capital é administrada por uma mulher. A despeito do provável avanço, especialistas alertam para as limitações da participação feminina nos pleitos.
Atualmente, apenas Fortaleza está sob comando de uma prefeita. Luizianne Lins, candidata à reeleição, é, por sinal, uma das quatro candidatas que hoje ostentam o primeiro lugar nas pesquisas. Nesse escrete aparecem também a correligionária e candidata à prefeitura de São Paulo Marta Suplicy (foto), que também lidera nas pesquisas, a deputada federal e candidata do PCdoB em Belo Horizonte, Jô Moraes, e Micarla de Souza (PV), em Natal.
Na capital potiguar, aliás, não só Micarla lidera a corrida eleitoral com 54%, de acordo com última pesquisa Ibope, como o segundo lugar também é ocupado por uma mulher, a petista Fátima Bezerra. Isso sem contar outros grandes colégios eleitorais do país onde as candidaturas femininas, apesar de não liderarem as pesquisas, mostram-se competitivas, como no Rio, onde Jandira Feghali (PCdoB), com 17%, ocupa o segundo lugar, atrás do senador Marcelo Crivella (PRB). E em Porto Alegre, onde a dupla de deputadas federais Maria do Rosário (PT) e Manuela D'Ávila (PCdoB) seguem de perto o atual prefeito e candidato à reeleição José Fogaça (PMDB). Na capital gaúcha, dos oito postulantes, quatro são mulheres.
"Temos ainda um caminho longo para que a disputa eleitoral seja mais igualitária", contemporiza a cientista política da Universidade de São Paulo, Maria do Socorro.
A diretora do Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea), Natalia Mori, endossa:
"Todo aumento é algo para se comemorar. É sinal de que os dados começam a refletir maior participação feminina", admite a pesquisadora. "Mas ainda não é o suficiente para alterar a ordem do problema. A política continua sendo um dos pilares que temos que romper para superar a estrutura patriarcal."
A cautela das especialistas é justificada pelos números. Apesar das candidaturas femininas competitivas, em 12 capitais - quase metade do total do país - nenhuma mulher está na disputa, incluindo cidades de peso como Salvador, Goiânia e Manaus.

Obstáculos

Natalia Mori, do Cfemea, conta que quatro fatores são vistos como primordiais para explicar a baixa participação feminina na política. O primeiro estaria relacionado à cultura, à maneira como homens e mulheres passam, desde pequenos, por experiências de aprendizagem diferenciadas que os levam a considerar como normais projetos de vida diferenciados. Os homens seriam educados para o sucesso individual no mundo público, enquanto sobraria para as mulheres o cuidado com o bem-estar da família. O segundo fator seria a divisão do trabalho entre os
Outro dado que preocupa as especialistas é a tendência da predominância masculina mais acentuada quando se trata de eleições majoritárias.